Thunder of sound
  Todos os Canais 23/05/2012

The Elder Scrolls V: Skyrim, RPG surpreende com mundo imenso, vivo, aberto e cheio de possibilidades. Confira este game vale a pena!
Cadastrado em: 10/12/2011 05:51:47

Enquanto cavalgava por um bosque, fui atraído por um moinho de vento solitário na beira de um rio. Cheguei a uma pequena casa de madeira onde uma mulher, abandonada pelo marido, cuidava do filho e do moinho sozinha, com muita dificuldade. Desconfiada de que o homem a havia trocado por outra, aceitei dar-lhe a mensagem de que ela não o queria mais, caso o encontrasse em minhas jornadas.

Deixei o local, atravessando a ponte à frente do moinho, e segui, até ser atacado por três lobos selvagens. Um deles, atingido pelas labaredas de fogo que lancei pelas minhas mãos, apenas para me defender, entrou no rio e se livrou das chamas que se espalhavam sobre seus pelos. Eis que observo que, em vez de voltar para me atacar, o lobo nadou até a outra margem, onde o filho da dona do moinho brincava ao sol. A criatura selvagem não hesitou em atacar o garoto que, ao menos de longe, parecia revidar, mas depois começou a correr pela sua vida.

Por um momento, pensei se não deveria apenas observar a luta e ver quem sairia vencedor, mas então lembrei da mulher abandonada pelo marido e imaginei a dor que ela sentiria ao perder a única coisa que lhe restou. Provavelmente nada iria acontecer se ele fosse morto ali, mas mesmo assim, disparei para o outro lado do rio quase que instantaneamente (afinal, sou um mago e tenho meus truques) e carbonizei a criatura. Embora o garoto não tenha exatamente agradecido, o que seria assustador, uma vez que nada daquilo era pré-estabelecido, ele disse, meio que alheio ao fato de que quase foi morto: “Gostaria de ser como você para fazer truques com fogo desse jeito”.

Segundos depois, eu tive a brilhante ideia de jogar o corpo do animal no moinho (sempre divertido), apenas para ver o que iria acontecer. Infelizmente (ou felizmente), a instalação não estava funcionando. Dez horas de jogo depois, descubro o cadáver do marido abandonado em uma caverna.

Jornada inesquecível

Nessa pequena sequência, descrevo aproximadamente 10 ou 15 minutos da minha experiência com The Elder Scrolls V: Skyrim, o quinto jogo da série de RPG de fantasia nascida nos anos 90 que chegou recentemente ao Xbox 360, PlayStation 3 e PC. A pequena história do pai que abandonou a família é apenas uma das muitas de histórias que Skyrim pode oferecer. São dezenas, centenas delas. Algumas sequer existem, mas, de alguma forma, você as cria com suas próprias ações. Assim, o jogo se torna a sua história, vivida e co-criada por você. Mesmo que os jogadores passem pelas mesmas quests, dungeons e cenários, as decisões tomadas por você para onde ir, o que fazer, em que ordem e como, faz com que o mundo do jogo reaja de uma forma única e, na maior parte das vezes, coerente com sua decisão, tornando cada momento vivo e cheio de significados.

Cada personagem, objeto, cenário, monumento, caverna, castelo ou cadáver conta uma história, que é montada aos poucos pelo jogador (se assim ele quiser) através do diálogo, da leitura de livros, cartas e diários, ou de sua simples imaginação, instigada e inspirada o tempo todo pelo rico e belo universo do RPG. Skyrim é, provavelmente, o que há de mais próximo de “realidade virtual” que já experimentei em um jogo, mais que qualquer simulador ou jogo massivo multiplayer online.

Começar uma aventura é dar início a uma viagem só de ida, através de uma experiência tão imersiva e envolvente que, por vezes, me dava a sensação real de estar em um outro país. Minha mente estava completamente fora de meu corpo: estava lá, em Skyrim, região ao norte do continente de Tamriel, onde sou um herói predestinado a salvar o povo de dragões em meio a uma guerra política e social.

Um mundo vivo
O mundo aberto e imenso de Skyrim está sempre te instigando, te desafiando. Mesmo que você esteja com um objetivo em mente, não há como resistir à tentação de explorar uma tumba misteriosa no meio do caminho. E se houver um tesouro escondido lá dentro? Camponeses sequestrados? Livros mágicos? A curiosidade e a ambição do jogador sempre falam mais alto. Vinte minutos depois, você já se esqueceu completamente de seu objetivo principal, provavelmente encontrou algum diário perdido, talvez roubado, ou uma carta com uma mensagem deixada para alguém. Mais quests! É difícil não se sentir movido ao notar que, se não fosse pela sua curiosidade, você poderia jamais ter encontrador aquele item precioso, perdido em um mundo tão imenso.

As cidades possuem vida e movimento, com habitantes que levantam de manhã, saem de suas casas, trabalham durante o dia e voltam para dormir. Pessoas gritam, conversam, cochicham, brigam, crianças correm, mercadores anunciam seus produtos, religiosos pregam suas crenças. Todos reservam algo para você, nem que seja um comentário sobre sua saúde (“Não me leve a mal, mas você parece doente, vá procurar um médico”, quando fui envenenado), sobre sua vestimenta (ou falta dela) ou sua reputação. A maioria delas lhe pedem favores e te contam histórias. Muita gente para procurar, itens para entregar, bandidos para matar e tesouros para recuperar: boa parte de Skyrim se resume a isso, sem que você perceba.

Neste mundo cultural e etnicamente rico, dividido por duas vertentes políticas, radicais imperialistas e revolucionários lutam pelas suas verdades, empurrando para baixo do tapete os problemas sociais que assolam os centros urbanos de Skyrim. A possibilidade de combater a corrupção ou intolerância racial são apenas alguns dos exemplos que mostram que, apesar do disfarce da fantasia, Skyrim é mais humano e atual do que vemos a primeiro momento.

O jogo é cheio de momentos singelos e contemplativos, enquanto se explora os cenários naturais belíssimos criados com maestria pela Bethesda. Detalhes não faltam para dar vida, movimento e cores a cada canto do imenso mundo do jogo. Montes gelados circundam toda a região de Skyrim, com sua rica fauna e flora: borboletas, coelhos, cervos, raposas e criaturas selvagens, como lobos e ursos, habitam um gigantesco cenário natural, repleto de rios, lagos, picos, cavernas, fazendas, fortalezas abandonadas, castelos, cidades e monumentos, todos cheios de segredos a serem descobertos.

Sair de uma cidade e adentrar no mundo aberto de Skyrim é sempre um momento mágico. Há tanto para observar, admirar, descobrir, temer e explorar, que suas viagens se tornam uma sucessão de eventos imprevisíveis e surpreendentes. A belíssima trilha sonora, repleta de melodias tocantes, enaltece esses momentos mais introspectivos, solitários, transformando caminhadas sob um céu estrelado ou um sol escaldante em pura contemplação.

No entanto, o perigo está à espreita, pronto para tirar você da tranquilidade a qualquer momento. Quantas vezes não fui surpreendido com um imenso dragão pousando na minha fuça, enquanto cavalgava e admirava o cenário ao redor? Ou então observar a sombra do monstrengo com asas sobrevoando o local, como um prenúncio de uma longa e inesperada batalha, sem qualquer planejamento prévio. Não sei o que é pior.

Imagine batalhas contra chefes em que, ao invés de você chegar até eles, eles chegam até você, te pegando totalmente desprevenido – assim é Skyrim. Em questão de segundos, a melodia calma e sublime se transforma em música de guerra, uma espécie de coral vibrante de vikings, e sua atenção se foca nas possíveis táticas para acabar com o oponente. Enquanto a criatura está no chão, cravar sua espada ou flechas em sua na pele escamosa é tão fácil quanto ser acertado pelo seu bafo chamuscante – ou congelante, envenenante etc., dependendo da criatura. Seu rabo também se torna uma arma, capaz de te lançar longe se acertado. Enfrentar o monstro em meio à torres, fortalezas e vilas e vê-lo pousar majestosamente, com suas enormes asas, em casas e estruturas de concreto e madeira, tornam as batalhas tão belas quanto empolgantes.

Sopapos medievais
Embora sejam repetitivos e, às vezes, até desajeitados, os combates empolgam, afinal, é a chance que você tem de botar em prática a vastidão de armas, equipamentos, magias e poções que o jogo te oferece. Assim, há inúmeras formas de atacar um oponente, seja de forma mais técnica, com armas brancas ou de longa distância, ou pirotécnicas, com dezenas de feitiços e invocações.

As mãos do personagem podem ser equipadas individualmente, com os gatilhos esquerdo e direito do controle (ou os botões do mouse) correspondendo aos ataques de cada uma delas, permitindo combinações criativas – e um tanto destrutivas. Com exceção das armas que ocupam as duas mãos, como marretas enormes e arcos, é possível inventar combinações interessantes com o sistema, principalmente de magias. O que é melhor: defumar e eletrocutar seu oponente ao mesmo tempo ou lançar uma mega tempestade de gelo, potencializando uma única magia com as duas mãos?

Skyrim consegue simplificar o sistema de habilidades, sem eliminar a complexidade da evolução de um personagem e tirar o senso de progresso do jogador. Através de uma interface extremamente simples, elegante e minimalista, sem aquela enxurrada de números e porcentagens, o gerenciamento de itens, habilidades, magia, quests e tudo o mais acontece com muito mais agilidade e eficiência.

Durante a evolução de um personagem, escolhe-se entre aprimorar vida, magia ou vigor, além de um “perk”, uma habilidade adicional. Tudo é tão belo e poético em Skyrim que essas habilidades são representadas por constelações, onde cada estrela é uma etapa para o desenvolvimento completo daquele tipo de conhecimento, o que pode levar dezenas de horas para ser completado. Como em Oblivion, o jogo anterior da série, botar uma habilidade em prática ou aprender com mestres e livros é o suficiente para desenvolvê-la, até que, aos poucos, seu personagem esteja apto a aprender uma nova técnica.

É comum que jogos tão grandes, abertos e cheios de possibilidades tragam imperfeições, e Skyrim, definitivamente, não está livre delas. Com exceção de pessoas com poderes de teletransporte (uma maneira do jogo evitar que elas fiquem presas pelo cenário), dragões que voam ao contrário da maneira mais bizarra possível, não vi tantos bugs, jogando na versão para PC. Ser chutado para fora do jogo, sem mais nem menos, foi o pior que me aconteceu, algumas vezes inclusive, porém, o sistema está sempre realizando salvamentos automáticos, para você nunca perder o seu progresso.

Skyrim mostra o poder imersivo da união entre jogo, em sua forma mais plena e interativa, com narrativa, permitindo que o jogador vivencie diferentes histórias, sensações e sentimentos. Poucos jogos até hoje conseguiram juntar um conteúdo tão rico, vasto e envolvente como Skyrim e, mesmo com seus defeitos técnicos, essa é uma experiência única e marcante, que deveria ser experimentada por todos que apreciam a linguagem interativa e imersiva dos games.

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